I — o peso dos dias
Há lugares onde o ar pesa diferente. Onde cada manhã chega acompanhada
de um esforço silencioso — não o esforço do trabalho em si, mas o esforço
de estar. De continuar a aparecer num espaço que nunca pediste que fosse assim.
Há quem escolha o mínimo e nisso se acomode. Há quem encontre no desconforto
dos outros uma forma de poder. E há quem, mesmo sabendo tudo isso,
continue a aparecer — porque desaparecer custaria mais.
Fui esse alguém durante muito tempo. E continuo a ser, só que agora
já não sei muito bem porquê. Ou melhor — sei, mas ainda não estou pronto
para dizer em voz alta.
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II — a razão que ficou
No meio daquilo tudo, havia uma presença.
Não um escape — uma razão. Alguém que tornava o esforço compreensível,
que transformava o tenho de ir num quero estar lá.
Não eram gestos grandes. Era simplesmente o facto de ela existir
naquele espaço, de ele fazer sentido enquanto ela estava.
A forma como trata as coisas a sério. A forma como não pede aos outros
o que não dá primeiro. Coisas pequenas que só se notam quando se presta atenção —
e eu, sem dar conta, tinha começado a prestar muita atenção.
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III — o silêncio que não esperavas
E depois veio a ausência. Sem aviso, sem escolha minha.
O espaço continuou igual. As mesmas paredes, as mesmas horas,
os mesmos rostos. Mas algo tinha mudado — a temperatura do ar, talvez.
A razão de estar tinha ficado algures fora dali.
Percorri esses dias como quem atravessa uma divisão às escuras —
sabendo onde estão os móveis, mas sem conseguir ver nada.
Funcional. Mas vazio de uma forma que não soube logo explicar.
Foi nesse silêncio que percebi. Não quando ela estava.
Mas quando já não estava.
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IV — o que o coração ainda está a nomear
Não é simples. Nunca é simples quando algo cresce devagar,
quando te habituas tanto a uma presença que deixas de a ver como algo especial —
até que ela desaparece e o especial fica evidente de repente.
Talvez seja só gratidão. Talvez seja admiração. Talvez seja aquela coisa
que a gente evita nomear — porque nomeá-la muda tudo, e às vezes
o mundo como está já é suficientemente frágil.
Mas o coração sabe antes da mente.
E agora a mente também sabe.
Não sei o que faço com isso.
Por agora, ponho aqui. E deixo respirar.
I — dois lados, uma vida
Há uma imagem que me persegue: uma balança. Dois pratos, um eixo ao centro,
e eu em cima — tentando não cair para nenhum dos lados.
Não é uma imagem que escolhi. É o que a vida foi construindo, devagar,
sem pedir licença. De um lado, o peso que puxa para baixo. Do outro,
o contrapeso que segura. E eu ali, no meio, a tentar perceber
de que lado a gravidade ganha.
Durante muito tempo achei que equilibrar era o objetivo.
Hoje percebo que o objetivo nunca foi esse.
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II — o peso que escurece
Há pesos que não são físicos. São feitos de palavras ditas de lado,
de esforço que nunca aparece, de presença que ocupa espaço
sem contribuir para ele. São três, no meu caso. Três formas diferentes
do mesmo padrão — e quando se juntam, o prato desce.
Quando isso acontece, a luz muda. Não de repente — vai escurecendo,
como quando uma nuvem passa devagar à frente do sol.
A balança inclina. Eu inclino com ela.
O mundo à volta fica mais pesado, mais cinzento, mais cansativo.
Mas não caio. E durante muito tempo não percebi porquê.
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III — o lado que traz sol
Do outro lado, também são três. Mas são de outra natureza —
presença que não precisa de se afirmar, trabalho que se nota pelo resultado,
cuidado que existe sem ser pedido.
Quando o peso delas cresce no prato, algo muda no ar.
Não é metáfora — é mesmo isso. Aparecem raios de luz onde antes havia sombra.
A balança inclina para o outro lado, mas desta vez a inclinação
não pesa — sustenta.
Há pessoas que quando entram num espaço não ocupam — iluminam.
Não por serem perfeitas, mas por serem genuínas.
E genuíno é raro o suficiente para se notar sempre que aparece.
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IV — o boneco que não caiu
Hoje mostrei a balança a quem devia ver.
E ao explicá-la, percebi uma coisa que não tinha verbalizado antes:
o boneco no topo inclina com a balança — mas não cai.
Não cai porque do lado da luz há sempre alguém.
Não para equilibrar o peso do outro lado —
mas porque a sua simples presença é âncora suficiente.
Mesmo quando o peso escuro desaparece e a balança tomba para o lado luminoso,
o boneco continua no mesmo sítio. Quieto. Firme. Como se finalmente
tivesse encontrado onde pertence.
Estabilidade não é ausência de desequilíbrio.
É saber que, independentemente de como a balança incline,
há um lado que nunca te deixa cair.